27.6.06

Reedições II - Rock Ritual

O Ronaldo elogiou, o Gazzoni falou de coisas correlatas, saiu uma matéria na Folha corroborando, e eu tava a fim de reeditar. Bem pretensioso, espero que não soe muito besta um ano depois...

Live Dead

A maneira talvez mais primitiva que a música se manifesta na história humana é na condição ritual, como suporte para a celebração social de uma espiritualidade compartilhada por um determinado grupo social. Antes dos adjetivos estéticos, racionalizações de uma visão antes mística, a música devia-se ao transe, ao convívio social além do cotidiano. Aliás, a música passa a ser especialmente cotidiana a partir do momento em que a gravação e o rádio entram em cena. Essa condição primal de ritual social, culto, manteve-se até os dias de hoje, sem perspectiva de sumir. Os rituais obviamente mudam em cada sociedade, com isso também muda a música. A música tradicional japonesa baseia-se num código rígido de ritual, do que pode ou deve ser tocado ou não, onde e quando, enquanto a música africana baseia-se num ritmo mais livre, voltado aos movimentos corporais. Refletindo e também moldando o temperamento social, a música segue em contato com o espírito, mesmo nos nossos tempos laicos.

Depois da morte de Deus, as mitologias que guiam e explicam como o indivíduo deve portar-se diante da sociedade foram obrigadas a mudar de escopo. Sem a religião como norte, desenvolveram-se outras formas de se interpretar e conferir sentido à vida. Enquanto a música erudita transcendeu o estado modal em direção as experimentações do minimalismo (para explicações, melhor ler “O Som e o Sentido” do Zé Miguel Wisnik), a música popular seguiu em mutação em direção ao pop propriamente dito. O rock é um exemplo bem acabado de mitologia moderna. Ali existem mitos fundadores (Elvis, Chuck Berry), mitos transformadores (Beatles, Sex Pistols), mitos com a função de manter um status quo dentro do conjunto do estilo (desde “American Pie” até aqueles artistas que lançam sempre o mesmo disco, como o AC/DC). Como a maior parte das religiões, o rock também tem a sua forma de culto, que desde o começo do estilo está presente: o show.

Se no começo os shows de rock diferenciavam-se de qualquer outro show apenas pela crueza africana (herdada diretamente do R&B), com o tempo e as bifurcações tomadas pelos xamãs, sacerdotes ou simplesmente músicos, começaram a aparecer códigos específicos de conduta dentro dos rituais de cada tribo que aparecia. Existem artistas cujos shows têm códigos especialmente próprios, como o Grateful Dead: horas em cima do palco, a liberação da pirataria, o público com comportamento específico, buscando o transe e a comunhão, as drogas certas, sempre tocando uma versão longuíssima de “Dark Star” – uma celebração especial por si mesma, atentando para o fato que até pouco tempo não existia uma versão oficial de estúdio para essa música. Da mesma forma o Kiss se inventou enquanto banda de performance, com um código de vestimenta imitado pelos fãs, atuações ensaiadas e sempre repetidas, como o Gene Simons vomitando sangue, cenografia impecável. Um devoto que vai a um show dessas duas bandas sabe exatamente o que acontecerá, assim como os católicos praticantes sabem a hora em deve-se levantar ou sentar durante uma missa.

Um componente normalmente presente em muitos rituais são os psicotrópicos, maneiras de atingir realidades diferentes que sempre estiveram associadas aos planos espirituais. No rock, saem o peiote, o ópio e o vinho e entram a cerveja, a maconha, a cocaína, o LSD e todo um panteão de químicas artificiais. Porém novamente os códigos sociais, além do mood causado por cada substância, vão estabelecer momentos específicos para cada droga. Maconha no reggae, LSD para os hippies, aguardente com refrigerante para os punks, cocaína e ketamina para os fãs de Placebo, cerveja para todos. Não que essas fronteiras sejam muito rígidas, mas pelo menos delimitam um campo de maioria para o uso de uma ou outra substância.

Todo show é um ritual, e as subculturas do rock vão criando maneiras específicas de se comportar dentro de cada uma dessas missas. Os indies são apáticos, os punks abrem uma roda de pogo, os headbangers batem a cabeça com o braço erguido em lml. A quebra desse padrão gera estranheza, pular num show do Hurtmold pode soar tão anormal quanto querer erguer as pernas como se fosse um reggae numa apresentação do Napalm Death ou girar os quadris ao som do Garage Fuzz. Tais normas de movimentação corporal são regidas ao mesmo tempo pelo pulso da música apresentada e pelos códigos de estilo de cada subcultura, assim como todas as outras relações que os membros de cada subcultura têm com o corpo (indumentária, cabelo, modificações corporais).

O espaço também vai mudar a maneira como o ritual se dá. O já citado Kiss funciona melhor num grande estádio, enquanto o Grenade faz mais sentido “tocando no chão, para 200 pessoas, com a fumaça do cigarro dos outros batendo na cara”. Casas muito grandes para um público limitado e uma banda menos conhecida minam a comunicação, assim como um teatro,.mesmo pequeno, não serve para um show punk. A relação de proxêmica muda os humores: um público espalhado soa melhor para o mini-Woodstock que é o show de um Grateful Dead, assim como um palco baixo de um clube pequeno vai ser mais eficaz para um Cherry Bomb. Os outros elementos que determinam um bom show seguem da mesma maneira: o horário em que começa ou acaba, volume e qualidade da aparelhagem de som, excesso ou falta de iluminação.

Porém o ritual quase sempre se completa – exceto quando interrompido pela polícia ou outro acontecimento esotérico do mesmo naipe. Afinal é um dos componentes mais fortes dessa religião roqueira, em cima do qual inúmeras narrativas são erguidas. Os discos são a liturgia, cantar uma música sozinho como um retardado é a oração, porém nada vai estar mais perto da transcendentalidade que um show. Nos tempos da telepresença, do individualismo da música eletrônica, da entrega a domicílio, a comunhão pública e compartilhada começa a encher-se de significação e necessidade. O rito do show de rock dá ao sujeito uma noção de participação e pertencimento a algo maior que a soma das partes. As vozes em uníssono, o transe coletivo da dança, isso tudo dá ao rock um sentido final, agora que a revolução (estética ou social) não está mais na sua mão.

Um comentário:

Jess disse...

Meu blog bloqueou o seu comentário por causa do exceso de palavras suspeitas no link que você deixou hahaha. à proposito, é um belo nome.

é bom saber que tem mais gente no mundo que acha que música é tudo.

abrazz