20.3.07

O sorriso da noite passada - duas músicas e cinco anos

Em tese, 2000 foi o ano em que a tensão pré-milênio dissipou-se num vazio de apreensão, onde, parece, NADA aconteceu. No Brasil a farra da indústria fonográfica já tinha arrefecido - começava a ressaca do período FHC, e naquele momento, nenhum dos modismos musicais que dominaram os anos 90 (o trio axé-sertanejo-pagode) parecia dar conta de repetir as vendas anteriores. Nos EUA também pouca coisa parecia acontecer: o fenômeno nü-metal arrastava milhares de adolescentes para a estupidez institucionalizada, enquanto o quase-na-UTI gangsta olhava com espanto aquele garoto branquelo de cabelos curtos e loiros posar de "novo Elvis" - posição que ele, Eminem, declararia a sério em "Without Me".

O mundinho indie voltava a crescer, dessa vez impulsionado pela internet (na velocidade "conexão discada"), com as ferramentes que caíam à mão - uma lista de discussão aqui, outro fórum ali. Os blogs, fotologs, videologs, wikis, redes sociais e todos os outros publicadores de conteúdo que dariam vida ao conceito de Web 2.0 ainda eram meros potenciais. O mp3 já existia, mas a baixa velocidade na hora de converter um arquivo de áudio para o formato e também a deficiência de tráfico - sem contar que o tamanho dos arquivos ainda era um pouco grande para a época, faziam mais sucesso como promessa do que como realidade.

Até que um programa criado por um calouro na Northeastern University (Boston, EUA) como trabalho de faculdade começou a ficar mais e mais popular. O Napster conectava você a outros usuários em todo o mundo, cada um com a sua pasta de mp3 e outros arquivos compartilhados. Através de um sistema de buscas razoável, você podia achar a música que quiser - bom, mais ou menos, mas era bem melhor do que qualquer coisa disponível até então.

É claro que o primeiro impacto, visível, foi econômico - e foi assim que o Metallica processou seus próprios fãs. Porém o outro maior efeito é que nos interessa aqui: o Napster começou a derrubar as fronteiras da música geograficamente também. Ao combinar a mídia virtual, não-física, com um rudimento de lógica p2p (peer-to-peer, uma rede descentralizada onde cada usuário faz as vezes de provedor), o Napster tornou virtualmente possível (em ambos os sentidos) que qualquer usuário tivesse acesso à qualquer canção já gravada.Um dos fenômenos que se seguiu foi o do "vazamento do álbum", cuja inauguração se deu com o esperadíssimo Kid A, do Radiohead - que fica pra outra história: aqui eu queria lembrar do fenômeno Strokes.

Desde que um pedaço de chumbo quente em alta velocidade tinha atravessado os miolos de Kurt Cobain, arrastando tudo que conseguisse pela frente, o rock alternativo procurava um substituto, um novo Nirvana. A imprensa especializada tentara vários candidatos, mas parecia que rock não seria o tipo de coisa que tão cedo voltaria à moda - o que de fato aconteceu e ainda acontece. O boom do rock independente, porém, gerou diversas cenas alternativas (Brasil incluso) que, a partir dos 00, iriam aprender novas formas - aliadas à novas tecnologias - de se relacionar com seu potencial e real público. O que talvez ninguém esperasse era que seria uma dessas bandas indies - mais especificamente, uma banda de garagem novaiorquina - que iria liderar a revolução musical da Rede.

Desde que se conhece por gente, a imprensa musical britânica é, antes de tudo, uma fábrica de hypes, no sentido mais literal possível, o de hipérbole. A quantidade de artistas e bandas que foram considerados "the next big thing" pelos escribas bretões e acabaram, por fim, virando totais desconhecidos, é incontável. Por isso, muita gente já garantia uma pulga atrás da orelha de vantagem quando o NME e seus correlatos começaram a falar desses cinco garotos retrô-moderinhos e seus tênis All-Star. "Descobertos" na segunda metade de 2000, logo os Strokes estariam lançando seu primeiro EP, em janeiro de 2001, pelo selo inglês Rough Trade (casa dos Smiths e outras estrelas indies).

E foi aí que o hype atravessou as fronteiras. O caminho normal seria os Strokes lançarem o EP inglês, e então, só um ano mais tarde (como, por fim, aconteceu) chegariam com seu álbum completo ao Brasil e ao resto do mundo (exceto os EUA, onde o EP seria lançado alguns meses depois). Para sacar qual era a do hype, ou você precisaria de um bom tanto de grana para comprar o disco importado (em LIBRAS), ou de algum amigo rico com bom gosto de quem você pudesse copiar, para uma fita cassete (os gravadores de CD ainda estavam engatinhando) a suposta maravilha musical vinda do Norte.

Só que, quando chegaram os Strokes, a paranga digital já estava em pé. Depois de umas duas ou três benevolentes almas inglesas passarem as três músicas do EP ("The Modern Age" [faixa-título], "Barely Legal" e "Last Night") o efeito viral do p2p começo a girar as engrenagens, e logo eu, no meio do nada, e mais um monte de gente no meio de tantos outros nadas, estávamos de ouvidos colados nas precárias caixas de som do computador para ouvir as letras obscuras, no conteúdo e na forma, de Julian Casablancas.

Ao mesmo tempo em que eu ouvia a bateria reta e os acordes repetitivos dos Strokes, no comecinho de "The Modern Age" o indie como o conhecíamos começava a desmoronar. Dali para a frente não teríamos amis uma casta de nerds, que ou tinham muita grana ou simplesmente torravam tudo o que tinham para ter o "melhor" da produção mais obscura do mundo. Aquela hierarquia baseada em quantos discos importados você tinha - o que significava que era a informação que você dispunha - deixava de fazer sentido. E Casablancas balbuciava: "Uppon a hill/ Is where we begin/ Let´s tell a story". O disco era uma maravilha, mal gravado e abafado na medida para qualquer fã de punk novaioquino ou de indie lo-fi (na verdade, os dois ao mesmo tempo) ficar babando. "The Modern Age" era arrastada e excitante, "Barely Legal", em versão embrionária, começava e parava, instigando - "I just want to misbehave/ I just want to be your slave": Julian adiantava a rima que faria Justin Timberlake "bring sexy back".

Mas aquela terceira canção, ahhhh, "Last Nite" (ou "Night", seilá). Guitarra sozinha, repetindo o acorde. Entra bateria, outra guitarra, baixo, um por vez, como se fosse introdução de música do Iggy Pop (aquela, você sabe). Quando você acha que eles vão se manter no instrumental, uma porrada em cada prato e lá vem o Julian, cantando com a boca encostada no microfone: "Last night, she said/ Oh baby I feel so down". A canção seguia entre o hipnótico e o empolgante - ninguém imaginaria que a "Smells Like Teen Spirit" do século XXI seria tão linear. Como Casblancas dizia no refrão, mais calmo que nas estrofes, "In spaceships they won´t understand". Quer melhor começo de século que isso?

2006. A estrutura mutante da web assumiu uma configuração mais próxima daquilo que os profetas da tecnologia imaginavam para ela. Agora sim, blogs, fotologs, Youtube, MySpace, orkut, P2P, torrent, já eram termos cotidianos, e mais, eram importantes, falavam (quase) tão alto quanto a grande mídia. Todo mundo podia estar perto de todo mundo, trocar e-mail com seus "ídolos", lançar músicas, remixes, besteiras via internet. De vídeos caseiros e blogs emos ao IQONS ("o MySpace da moda", dizem) e o editor de texto do Google, nunca a humanidade viu tanta besteira ao mesmo tempo - e também nunca viu tantas coisas boas ao mesmo tempo.

Uma inglesa baixinha, um pouco acima do peso, faz algum barulho. Talvez mais barulho que sua voz delicada pudesse causar em meios arcaicos. De certa forma, ela não é tão diferente de Julian Casablancas: ela é filha de alguém, no sentido brasileiro de ser filho - ascendência importante. Talvez estivesse mais perto de Albert Hammond Jr., guitarrista dos Strokes: o filho do cantor/compositor inglês Albert Hammond (criador do tema-oficial das Olimpíadas de Seul, cantado por Whitney Houston e de mais alguns sucessos de Tina Turner nos anos 80 - e que fez relativo sucesso no bittersweet dos anos 70) pudesse ser mais íntimo da filha do comediante e ator Keith Allen (co-compositor do hit "World In Motion" com o New Order e coadjuvante dos longas Cova Rasa e Trainspotting, entre outras peripécias) e da produtora de cinema Alison Owen (Sylvia e britanices do gênero).

Lily Allen é filha da aristocracia hipster bretã, é verdade - não tanto quanto Julian Casablancas é filho do dono de uma das maiores agências de modelos do mundo, a Elite Models de John Casablacas. Não que os caminhos tenham sido tão diferentes: enquanto a mais velha do novo clã Allen traficava ecstasy em Ibiza, o jovem Casablancas, criado pela mãe, e com um período de rehab alcoólica patrocinado pelo pai (na Suíça, diga-se), recém havia se libertado do trabalho de bartender para se tornar um rockstar no alvorecer do novo século.

Porém, Casablancas não teve nenhum mérito na migração dos Strokes do "fétido" circuito de clubes undergroud novaiorquinos para o estrelato mundial via Internet. Eram os "fãs" que faziam o "trabalho sujo" - a um repórter brasileiro, o baterista quase-tupiniquim Fabrizzio Moretti declarara que "há meses o Julian não chega perto de um computador" (quando indagado sobre uma "entrevista por e-mail" que outro "respeitado jornalista" havia realizado com os Strokes).

A garota, porém, não tinha nenhum pudor em ter a rede a seu lado. Não que a invasão fosse planejada: em cada tópico do MySpace dela, seguia um pedaço de coração. O que Lily Allen fez foi transformar cada uma das arquetípicas afirmações de uma mulher moderna fosse transformada em canção. Com uma força que ultrapassa (perdoem-me, assim como o faço) Chan Marshall, Lily passava por cima das besteiras consumistas de qualquer Sex And The City para atingir um âmago pós-feminista onde a dança (território feminino) supera a "atitude".

Para os tablóides ingleses, o sucesso da garota Allen pode ser inusitado - suas primeiras canções de sucesso ("LDN" e "Smile"), ao lado dos Future Cutz, principais produtores do álbum Alright, Still, são, pasmem, uma revitalização do two-tone inglês que fez os Specials parte da new-wave quando tudo o que eles queriam era mostrar que, dos skinheads ao Clash, a cultura proletária inglesa era, a priori, menos racista e muito mais divertida - e que a Jamaica é, culturalmente, uma ilha tão importante quanto aquela outra ainda governada pela Rainha.

Parte do trunfo de Allen reside em ser simplesmente humana - ao invés de exalar aquela fragância cool de Casablancas, alternando fleuma e explosão em letras crípticas, Lily posa como um escancarado profile de orkut, reclamando, fazendo planos. Exatamente ao contrário da celebridade "olimpiana" de Edgar Morin e outros teóricos franceses, Allen assume o papel mais próximo, como uma integrante de um reality show que parece "gente como a gente" - ela reclama das revistas que falam que as mulheres devem perder peso, mas também queria ser parecida com a Kate Moss ("Everything Is Wonderful"), reclama do irmão maconheiro ("Alfie"), espera na fila para entrar na balada ("Friday Night") onde vai ter que se virar com aqueles tipinhos masculinos chatos ("Knock'Em Out"). Num disco que parece uma compilação de posts de um blog de uma garota comum, Allen bagunça ainda mais a distância entre fã e artista - e todo mundo vira amigo no final, nem que seja via MySpace.

A distância de cinco anos entre "Last Night" e "Smile" parece remontar séculos. Entre o brado da ressaca moral e física de Casablancas e sua volta ao rock e o desprezo balançante de Allen pelo ex-namorado, existe uma evolução radical nos meios de se produzir e distribuir música - você pode achar que é a concretização das promessas do punk ou que é a verdadeira ascensão da cultura do DJ, mas o que importa é que, desde a invenção da gravação, nunca a promessa de que "você nunca mais vai escutar música do mesmo jeito" fez tanto sentido.

2 comentários:

marcellomuller disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Geovanna disse...

Gonzoleti, finalmente tirei um tempinho para ler o post que, como sempre, é muito bom!

besitos